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O tempo

Fazer um filme ensina a gente a lidar com o tempo. Esta é uma grande verdade.

Por exemplo, é preciso saber quanto tempo vai durar o filme e o mesmo vale para cada uma das cenas. Será que elas estão longas demais?, penso o tempo todo nisso. E as noites e os dias “fílmicos”? Será que eles criam a sensação da passagem de tempo? O mais curioso é que o espectador (este crítico inexorável!) sente essas coisas intuitivamente. Ele percebe (ou melhor, ele sabe!) quando o ritmo das cenas está muito acelerado ou irreal demais. Sente tudo no ar da sala de cinema, no corte de cada uma das cenas – o espectador sente o tempo.

E o tempo anda junto com a paciência, sem dúvida – ou melhor, o tempo faz a cadência da paciência, e é preciso esperar muito às vezes. Você pede um orçamento, e ele não vem. Você espera uma ligação, e ela também não vem. Você quer visitar uma locação e está chovendo torrencialmente (e tem chovido muito no sul). Então, o que você faz? Espera, simples assim. Não tem outro jeito. O que mata a gente, o que nos tortura de verdade é a maldita espera.

Eu esperei quase dois meses para chegar o registro do filme junto à Fundação Biblioteca Nacional. Agora ele veio. Finalmente! É mais uma daquelas pequenas conquistas, sem dúvida.

Atualmente eu estou trabalhando no processo de visualização do filme. O que é isso? Visualização significa tornar nossas idéias e conceitos “visíveis” muito antes de serem levados ao set de filmagem, propriamente dito. Este é um momento extremamente criativo, onde uma série de combinações de enquadramentos, sequências, ângulos e composições são testados e aprimorados. A visualização é, a rigor, uma conexão física com o filme, além de permitir a revisão e o refinamento do trabalho que está sendo criado.

Vale ressaltar que o processo de visualização não se resume a decupar os planos de uma cena – uma visão bastante limitada e redutora deste processo criativo. A visualização vai além do que a própria palavra endereça, pois, junto com o roteiro, é um “espaço” onde construímos (muitas vezes solitariamente) a emoção, o estado de espírito e o sentimento das cenas, personagens e lugares. Na construção de um personagem, por exemplo, podemos associar determinada música e dizer isso para o ator (“olhe, escute esta música – ela diz muito sobre quem é o personagem, lembre-se dela em tal e tal cena”). Um lugar pode ser ressaltado ainda mais pelo som do ambiente que está ao redor. Um detalhe no figurino pode indicar um traço da personagem – um grande chapéu, um anel, um dente de ouro, etc. Tudo isso é um trabalho exclusivo do Diretor, ainda que o Diretor de Arte e o Diretor de Fotografia estejam muitas vezes diretamente envolvidos.

Logicamente, a visualização também envolve uma série de desenhos, fotografias e ilustrações. Como o filme Mar do Poeta acontece em 1908, tenho recolhido uma série de imagens do início do século XX – um trabalho bem divertido, admito. Elas não são importantes apenas como uma referência para a construção dos figurinos, mas também ajudam a construir todo o ambiente visual do filme. Em 1908, “observava-se” o mundo de uma forma diferente, vivia-se a Belle Époque (1870-1914), mas quando olho aquelas imagens a pergunta que eu faço é esta: como aquele homem que vivia no início do século XX pode ser igual a nós? No que exactamente somos diferentes?

Alguém que visitou este blog recentemente perceberá que este post foi modificado. Aqui havia uma fotografia de uma possível locação do filme. Preferi tirar. Explico a razão: ainda não tenho certeza se poderei utilizá-la, pois neste momento ela é apenas uma ideia. Aproveito para agradecer a ajuda de vários amigos que, mesmo estando longe, enviam sugestões ao filme ]

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VITTORIO STORARO

“I have always thought that film was capable of registering the emotions of the people who participated in the making of a movie. A movie is like a soloist playing in a symphony. They may have personal feelings about the music, but they must play the same tune under one conductor. As Cinematographers, we write with LIGHT and MOTION, using SHADE and COLOR to punctuate one important part of the vocabulary of cinema. Images are the language of cinema. They are formed by the embrace and the conflict of LIGHT and SHADOW, orchestrated on the screen by one of the co-authors of the film: the author of cinematography. It doesn’t matter in which part of the world the screen is. Through this screen we are able to express ourselves, our culture, our sentiments and our emotions. Through this screen we are able to learn and to teach each other. Through this screen we are able to grow up together.”

Vittorio Storaro, Cinematógrafo de filmes como “O último imperador”, “Apocalipse Now” e “Reds”.

Diversão

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Como chamar a atenção em 1908

Bom, vamos dar um desconto: não havia muita coisa para se fazer no início do século, mas parece que as pirâmides eram bem populares. Uma observação: já vi esta curiosa formação humana em algumas praias do Brasil.

Minha consciência não viverá jamais a experiência de sua morte, mas viverá a vida inteira com uma figura empírica da morte. [A consciência] conhece apenas a morte dos outros, e a angústia de ter que enfrentá-la.

Jean Ziegler


Conforme já foi revelado neste blog, o roteiro do curta-metragem Mar do Poeta foi elaborado a partir de um conto homônimo (ver o post “O conto original”). No entanto, as raízes mais profundas de sua história mergulham, logicamente, nas minhas experiências pessoais diante da morte e dos funerais. A perda de amigos e familiares é, sem dúvida alguma, a expressão mais forte de tais experiências, visto que dificilmente conseguimos nos manter indiferentes diante da morte de uma pessoa próxima.

Todavia, respeitando-se certos limites, a construção do roteiro também sofreu influência dos meus estudos sobre a morte e a mídia feitos durante o Mestrado em Ciências da Comunicação. Na ocasião, entrei em contato com vários autores que estudam os modos, usos e sentidos da imagem da morte no contexto da mídia. Os livros de Roland Barthes, Susan Sontag, Norbert Elias, Jean Ziegler, Edgar Morin, John Keane, John Taylor e Zygmunt Bauman foram fundamentais no meu estudo e contribuíram largamente para o desenvolvimento de certos aspectos do roteiro.

Embora os autores citados tenham contribuído para o desenvolvimento do roteiro, é preciso reconhecer que eles não fazem parte dos universos da arte em si, mas da ciência propriamente dita. Literatura, cinema, religião, fotografia, música, folclore, cada um ao seu modo, também foram fontes de inspiração para o Mar do Poeta. Neste sentido, a obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez teve grande influência. É notório que em muitos de seus livros transparece um encontro do realismo com a fantasia. As histórias são narradas de modo a parecer sempre que tudo faz parte da mais banal das realidades. Além de García Márquez, o cotidiano e o pitoresco visto com o humor nas crônicas dos escritores brasileiros Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade também ajudaram a construir o tom que se desejava para o curta-metragem. Por outro lado, em certos filmes como La strada (1954), La dolce vita (1960), Amarcord (1973) e E la nave va (1983) de Federico Fellini, Feios, sujos e malvados (1976) de Ettore Scola ou O incrível exército de Brancaleone (1965) de Mário Monicelli, é possível reconhecer a mesma essência dos autores citados anteriormente.

Não há necessidade de esconder – as obras e os autores citados contribuíram para a construção do roteiro, os personagens e o conceito de Mar do Poeta. Através de tais referências percebe-se que este é um curta-metragem que não pretende ser “realista”, estrita-mente falando. Todos os elementos que compõem a narrativa do filme precisam destacar o lado da transfiguração da realidade pelo imaginário. O filme deve retirar o espectador da percepção comum do mundo e dos acontecimentos e colocá-lo diante de uma experiência nova, capaz de levá-lo a uma reflexão sobre o seu quotidiano, valores e experiências.

Enquanto escrevia o roteiro não parava de pensar que o último ato da nossa vida não será representado por “nós”, mas pelos “outros”: jamais levaremos o próprio caixão pelas mãos. E era justamente o último ato da vida de todos nós que eu queria explorar. O ato que, como tantos outros, revela a experiência social do bicho homem, a afirmação contundente da sociabilidade humana: não vivemos e não morremos sozinhos. Tudo que fazemos é socialmente compartilhado: as alegrias e as tristezas, a vida e a morte, o sucesso e a derrota. Ainda que cada consciência, de forma individual, tenha suas apropriações, os elos sociais jamais desaparecem.

 

Uma praia em 1908

Uma praia em 1908

 

 

Mar do Poeta é um curta-metragem de ficção cuja história se desenvolve em 1908 no interior do Rio Grande do Sul. Após a morte de um Poeta, os moradores de uma cidade partem numa jornada para enterrá-lo próximo ao mar, atendendo o seu último pedido. Explorando certos aspectos universais da relação dos vivos com os mortos, o filme apresenta o microcosmo de uma América Latina religiosa, multiétnica e de paisagens fantásticas. Esta visão estrutural tem dois pontos de articulação: a viagem e os personagens.

Amarrada no interior de uma expressão sociocultural específica, a história de Mar do Poeta apresenta um lugar desconhecido, onde um acontecimento comum (um enterro), se transforma em algo extraordinário. Todas as ações do filme são mediadas pela imposição do deslocamento geográfico, ou seja, a longa viagem até o mar. Os personagens são retirados do seu espaço original e passam a enfrentar um ambiente estranho e difícil. Neste contexto, a geografia e a passagem do tempo não são meros elementos, mas desempenham o papel de um agente catalisador: o ato de viajar do pampa até o mar fortalece os sentimentos de despedida, união e religiosidade. A ideia de uma viagem como pano de fundo para as ações foi inspirada em histórias clássicas da literatura, como Odisseia de Homero, além de filmes como Diários de Motocicleta (2005) de Walter Salles.

Mar do Poeta é uma história arquetípica, pois se utiliza de imagens psíquicas do inconsciente coletivo. Portanto, é proposital que todos os personagens tenham nomes genéricos, como Prefeito, Vigário, Capataz, etc. Este recurso permite identificar os personagens integrados numa sociedade hierarquizada e marcada por contrastes étnicos: negros, índios, latinos, brancos, etc. Contudo, ao convergirem para o mar, os personagens passarão por dificuldades, ficarão sujos, maltrapilhos e exaustos. Este fato tem uma dupla função. A primeira é anular todas as distinções de raça e/ou classe, permitindo revelar aspectos universais da experiência humana diante da transcendência da morte. A segunda é acentuar a ideia de uma comunidade que se une cada vez mais em torno de um objetivo comum, tendo um único foco e orientação.

Em síntese, Mar do Poeta aborda o longo adeus de uma comunidade a um ente querido. Os personagens, os acontecimentos e a paisagem deste filme revelam a realidade latino-americana como fonte de inspiração, mas esta é uma realidade transfigurada pelo imaginário.

De onde veio o roteiro de “Mar do Poeta”? Ele foi criado a partir de um conto homônimo escrito em 2004 ou 2005 – não recordo mais a data precisa. A imagem original: início do século XX, noite de inverno, salão de uma prefeitura do interior do Rio Grande do Sul, e uma frase que não deixava minha cabeça: o poeta morreu. Porque este lugar, época e personagens? Não faço a menor ideia, mas foi com aquele conto que tudo começou. E aqui está ele.

Abraços a todos

Alan Mendonça

MAR DO POETA – O CONTO ORIGINAL

Os dois cachorros mais pulguentos do mundo, esparramados como reis no sofá, observaram o Prefeito tirar a roupa e entrar na banheira de água quente colocada no meio do salão da Prefeitura – eram nove horas da noite, precisamente. A quentura da água foi tão agradável no frio daquele inverno que o Prefeito não resistiu e urinou. Foi um ato simples da natureza humana, mas que se traduziu numa expressão de felicidade infantil, risonha e de olhos fechados. Mal recostou a cabeça e entraram pelo salão o Doutor, o Vigário e o Juiz. “Seu Prefeito: o Poeta morreu”, disse o Doutor com espantosa cerimônia. “Se morreu, então enterra”, respondeu o Prefeito, procurando um pedaço de sabão na banheira. “Prefeito” – continuou o Vigário – “o Poeta deixou uma carta. Ele pediu para ser enterrado perto do mar”. O Vigário abaixou a cabeça, tirou o chapéu e deu um passo à frente. “Eu peço em nome da minha paróquia alguns cavalos e um carro de boi para levar o Poeta”. “E afirmo, Prefeito, que a carta é legítima”, atravessou o Juiz com o dedo apontando para o céu. O Prefeito encarou os três, silencioso, desconfiado, apertando os olhos. Muito a contragosto saiu da banheira, caminhou até a mesa, abriu uma gaveta e pegou um revólver. Foi até a janela e olhou – a cidade inteira estava lá fora, esperando. Pensou – o mar, ora! o mar… Voltou-se para os três e gritou a plenos pulmões: Capataz! Os dois cachorros se levantaram do sofá e saíram correndo do salão. O Prefeito coçou a barba grisalha – os olhos no chão, pensativo – apontou a arma para o alto e deu um tiro. Um homem entrou correndo no salão, assustado e com os olhos arregalados como os de uma coruja. “Senhor Prefeito?”, balbuciou. “Capataz, arruma todos os meus cavalos e mais um carro de boi, tudo para amanhã bem cedo.” O Capataz nem pensou – “amanhã bem cedo, senhor Prefeito” – e saiu correndo. O Prefeito jogou o revólver na mesa, caminhou pelo salão e entrou na banheira outra vez – a água já estava fria. “Vigário? Doutor? Não saiam ainda. Arrumem um jeito de embalsamar o Poeta, porque este bicho não pode apodrecer na viagem”. “Eu mesmo cuido disso, Seu Prefeito”, disse o Doutor, e saíram fechando a porta. O Prefeito finalmente recostou a cabeça na banheira – “o mar, ora! o mar é tão longe…”.

Amanheceu um dia frio e de poucas nuvens. Ali na Praça já estava o carro de boi, decorado com flores e ervas cheirosas, pães de todas as formas e sabores, um galo preto que não parava de cantar e bater as asas, chaleiras, lampiões e velas, vidros de perfume, fumo de rolo, garrafas de vinho e de cachaça, panelas, sapatos e botas, lingüiças de porco defumadas, seis relógios de cuco, violões, fotografias velhas, cadernos e livros – aos montes! – e o caixão com o morto. O Prefeito se aproximou e olhou com uma mistura de desconfiança e curiosidade para o Poeta. Parecia que estava rindo. “Está mesmo morto, Vigário? Me parece mais vivo que a gente”, sentenciou. O Vigário levou-o para um canto. “Prefeito, tenho que lhe pedir outra coisa: venha conosco até o mar.” O Prefeito arregalou os olhos. “Eu?” “Olha em volta, homem, tem até mulher grávida aqui!” O Prefeito encarou o Vigário por alguns instantes – “o mar, ora! o mar é tão longe…” –  e voltou-se para a Praça. O que se via era um espetáculo de mulheres vestidas de preto, crianças gritando e correndo por todos os lados, a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro, os mendigos quase nus e as putas velhas, o Barbeiro e seu cachorro cego de um olho só, trinta e sete galinhas e vinte dois porcos produzindo uma algazarra infernal, o Pedreiro italiano gritando impropérios às trinta e sete galinhas e aos vinte e dois porcos, os Coronéis de Bigode, o Doutor conversando vulgaridades com o Sapateiro, o Escultor com uma pedra imensa amarrada nas costas, as dezoito sobrinhas encantadas do Capitão Lucrécio da Morte Certa, o Juiz e os seus correligionários, os bêbados mijados, um homem demoníaco que cuspia fogo pela própria boca – “Deus! de onde veio tanta gente?” – o Capataz com os olhos de coruja, os ciganos de Quintalina, o Professor de latim, os índios do Mar dos Charaéis, as pequenas freiras do Convento Redentor das Almas Perpétuas e Milagrosas, e outros tantos que ele jamais tinha visto na sua vida. O Prefeito deu um passo à frente, puxou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto. Mais um. E outro. A multidão finalmente se calou. “Pode passar as ordens, Vigário”, disse. “Irmãos, com a ajuda de Deus, vamos levar o Poeta até o mar, atendendo ao seu último pedido. Peço para que a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro para ir à vá na frente e que as mulheres e crianças usem os cavalos.” Assim foi feito, e muito devagar foram saindo da cidade, que ficou completamente vazia – até os fantasmas e os cachorros vira-latas seguiram o cortejo.

Foi um Coronel de Bigode, muito asseado, muito seguro de si, o primeiro a se aproximar do carro onde estava o morto. Abriu um livro pequeno de capa vermelha, virou algumas páginas procurando e disse, batendo com o indicador: “foi com este poema que eu batizei a minha filha, e agora eu quero ler ele para você, Poeta”. O Coronel de Bigode leu com tamanha emoção e sentimento que quase não terminou a última estrofe, mas engoliu as lágrimas, fez uma reverência cerimoniosa com a cartola e entregou o livro para o Escultor que caminhava ao seu lado. E este repetiu o gesto: virou algumas páginas e falou, apontando para o livro: “Poeta, um dia me faltou inspiração para fazer uma rosa de mármore branco – você se lembra? – e foi com este poema que eu descobri: a rosa que eu procurava estava no jardim da lua”. E assim o livro foi passando de mão em mão, durante todo o dia. Quando anoiteceu, estavam todos tão cansados, tão exauridos, que dormiram na beira da estrada, uns sobre os outros, do jeito que deu.

Antes mesmo de o sol nascer, o galo preto que estava no carro de boi bateu as asas e cantou. Depois de uma noite terrível, com pesadelos povoados de lobisomens alados, o Prefeito lavava o rosto numa sanga gelada quando o Vigário se aproximou. “Prefeito, eu gostaria de lhe pedir mais uma coisa.”, interpelou o Vigário. “Vigário, o senhor não acha que já me pediu coisas demais nesta história?” “Sim, é verdade, é verdade… mas é que eu queria ter uma fotografia deste enterro, desta viagem, deste acontecimento!” E fez um gesto amplo com as mãos, como se conseguisse abraçar todo aquele rebuliço de gente e de bichos que estava à sua volta. O Prefeito secou o rosto olhando para o horizonte – “o mar, ora! o mar é tão longe…” – e gritou a plenos pulmões para o Capataz que viesse até ele. O Capataz ouviu com atenção, mas não entendeu. “Um fotógrafo? Um daqueles retratistas? Senhor Prefeito, não sei onde encontrar um.” “Istso é problema teu, monte de merda.” O Capataz nem discutiu – “será feito, senhor Prefeito” – e saiu correndo pela estrada. “Prefeito, isto que estamos fazendo é muito mais que uma caridade” – continuou o Vigário, sorrindo – “estamos atendendo a um pedido, o último!, de um homem que era adorado por todos, mas sozinho no mundo. O senhor sabe, o filho do Poeta sumiu-se por aí, perdeu-se em alguma desgraça, em alguma guerra neste mundo de Deus…” O Prefeito fingia que escutava, mas o pensamento estava longe, mergulhado na saudade de uma banheira com água quente.

As cantorias, as rezas e a leitura do livro de poemas continuaram iguais naquele dia, mas a noite foi muito pior, porque uma chuva gelada caiu sobre os cansados peregrinos. Porém, assim foi a viagem: uns dias de sol e outros de chuva. E houve dias em que o vento frio cortou até as esperanças mais escondidas. E também houve dias em que a própria solidão andou ao lado deles, e nem a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro conseguia tocar. Somados um a um, foram quatorze dias caminhando sobre as mais terríveis intempéries, até que finalmente chegaram ao mar numa tarde. Era uma praia longa, de ventos fortes, areia grossa e com vários navios antigos encalhados. A multidão correu feliz sobre as ondas. Mergulharam na água gelada, gritaram como bichos e lamberam os dedos salgados – era a primeira vez que viam o mar. As crianças corriam na areia, faziam castelos e abraçavam os navios encalhados. O Vigário ficou nervoso no meio daquela algazarra toda, forçou a vista procurando, olhou de um lado para o outro, até que gritou pelo Prefeito. Uma, duas, três, quatro vezes. “Pare de gritar, Vigário! Estou bem na sua frente, homem de Deus!” O Vigário precisou colocar a mão na boca para não gritar, porque aquele homem esfarrapado, magro, descalço, imundo e escabelado era mesmo o Prefeito – a sua barba parecia ter crescido um metro! “Desculpe, não vi que era o senhor… Olha, Prefeito, lá está o Capataz! E, por Deus, ele conseguiu um fotógrafo!” Foram todos saindo do mar e aos poucos se arrumando para a fotografia. O fotógrafo montou o tripé. “Prefeito, tenho mais uma coisa para lhe pedir”, disse o Vigário ajeitando a batina. A multidão se aglomerava. “Diga de uma vez, Vigário”, falou o Prefeito alisando a barba. O Vigário entregou um livro pequeno e de capa vermelha ao Prefeito. “Toma, ainda falta ler o último poema.” As crianças sentaram na frente da multidão. O Prefeito suspirou cansado e, a contragosto, abriu o livro na última página. Leu: “eu deixo para o mundo os versos no caminho, eu deixo o mar olhando a própria vida”. Houve um breve silêncio, e foi naquele instante que um segredo conseguiu se revelar no vento do mar. O Prefeito entendeu finalmente que o último poema não era aquele. Entendeu, sim, que tudo foi uma artimanha, uma engenhosidade obscena daquela cabeça cheia de estrofes e rimas. O último ato do Poeta foi justamente preparar uma armadilha para arrancá-los daquela vida miserável que levavam. A viagem que eles fizeram em quatorze dias era um verdadeiro poema, um soneto, sendo que cada dia era uma estrofe. Eles partiram como Juízes e Pedreiros, Vigários e Putas, Barbeiros e Capatazes, mas chegaram uns iguais aos outros: todos sujos, famintos, esfarrapados e descalços. O Prefeito tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto. “Vigário, tenho 63 anos e hoje, dia 22 de julho de 1908, vou enterrar este Poeta doido e fundar uma cidade nesta praia. Vou chamá-la de Nova Poesia. Ninguém volta! Ouviram? Ninguém! Pode tirar a foto!” O fotógrafo enfiou o rosto embaixo do pano preto e com a mão focalizou. Tiraram o caixão do Poeta do carro de boi e o colocaram ele de pé, entre o Vigário e o Prefeito. Todos ficaram quietos, imóveis, na pose mais solene que conseguiram fazer. Ouvia-se apenas o vento e o mar. O fotógrafo destampou o rosto do pano preto e olhou fixamente para aquela multidão de esfarrapados. Afastou-se da câmera, apontou o dedo tremulante para o caixão e caiu de joelhos, as mãos no rosto, chorando. “Este homem no caixão é o meu pai”, conseguiu finalmente dizer.

Bem-vindo!

Seja bem-vindo ao Blog Oficial do curta-metragem “Mar do Poeta”. Este filme foi um dos vencedores do concurso de projetos realizado pelo Ministério da Cultura – Secretaria do Audiovisual de 2009.

Nesta página você será informado de todas as novidades relacionadas ao filme. Não deixe de enviar seus comentários, sugestões e críticas.

Abraços!

Alan Mendonça