De onde veio o roteiro de “Mar do Poeta”? Ele foi criado a partir de um conto homônimo escrito em 2004 ou 2005 – não recordo mais a data precisa. A imagem original: início do século XX, noite de inverno, salão de uma prefeitura do interior do Rio Grande do Sul, e uma frase que não deixava minha cabeça: o poeta morreu. Porque este lugar, época e personagens? Não faço a menor ideia, mas foi com aquele conto que tudo começou. E aqui está ele.
Abraços a todos
Alan Mendonça
MAR DO POETA – O CONTO ORIGINAL
Os dois cachorros mais pulguentos do mundo, esparramados como reis no sofá, observaram o Prefeito tirar a roupa e entrar na banheira de água quente colocada no meio do salão da Prefeitura – eram nove horas da noite, precisamente. A quentura da água foi tão agradável no frio daquele inverno que o Prefeito não resistiu e urinou. Foi um ato simples da natureza humana, mas que se traduziu numa expressão de felicidade infantil, risonha e de olhos fechados. Mal recostou a cabeça e entraram pelo salão o Doutor, o Vigário e o Juiz. “Seu Prefeito: o Poeta morreu”, disse o Doutor com espantosa cerimônia. “Se morreu, então enterra”, respondeu o Prefeito, procurando um pedaço de sabão na banheira. “Prefeito” – continuou o Vigário – “o Poeta deixou uma carta. Ele pediu para ser enterrado perto do mar”. O Vigário abaixou a cabeça, tirou o chapéu e deu um passo à frente. “Eu peço em nome da minha paróquia alguns cavalos e um carro de boi para levar o Poeta”. “E afirmo, Prefeito, que a carta é legítima”, atravessou o Juiz com o dedo apontando para o céu. O Prefeito encarou os três, silencioso, desconfiado, apertando os olhos. Muito a contragosto saiu da banheira, caminhou até a mesa, abriu uma gaveta e pegou um revólver. Foi até a janela e olhou – a cidade inteira estava lá fora, esperando. Pensou – o mar, ora! o mar… Voltou-se para os três e gritou a plenos pulmões: Capataz! Os dois cachorros se levantaram do sofá e saíram correndo do salão. O Prefeito coçou a barba grisalha – os olhos no chão, pensativo – apontou a arma para o alto e deu um tiro. Um homem entrou correndo no salão, assustado e com os olhos arregalados como os de uma coruja. “Senhor Prefeito?”, balbuciou. “Capataz, arruma todos os meus cavalos e mais um carro de boi, tudo para amanhã bem cedo.” O Capataz nem pensou – “amanhã bem cedo, senhor Prefeito” – e saiu correndo. O Prefeito jogou o revólver na mesa, caminhou pelo salão e entrou na banheira outra vez – a água já estava fria. “Vigário? Doutor? Não saiam ainda. Arrumem um jeito de embalsamar o Poeta, porque este bicho não pode apodrecer na viagem”. “Eu mesmo cuido disso, Seu Prefeito”, disse o Doutor, e saíram fechando a porta. O Prefeito finalmente recostou a cabeça na banheira – “o mar, ora! o mar é tão longe…”.
Amanheceu um dia frio e de poucas nuvens. Ali na Praça já estava o carro de boi, decorado com flores e ervas cheirosas, pães de todas as formas e sabores, um galo preto que não parava de cantar e bater as asas, chaleiras, lampiões e velas, vidros de perfume, fumo de rolo, garrafas de vinho e de cachaça, panelas, sapatos e botas, lingüiças de porco defumadas, seis relógios de cuco, violões, fotografias velhas, cadernos e livros – aos montes! – e o caixão com o morto. O Prefeito se aproximou e olhou com uma mistura de desconfiança e curiosidade para o Poeta. Parecia que estava rindo. “Está mesmo morto, Vigário? Me parece mais vivo que a gente”, sentenciou. O Vigário levou-o para um canto. “Prefeito, tenho que lhe pedir outra coisa: venha conosco até o mar.” O Prefeito arregalou os olhos. “Eu?” “Olha em volta, homem, tem até mulher grávida aqui!” O Prefeito encarou o Vigário por alguns instantes – “o mar, ora! o mar é tão longe…” – e voltou-se para a Praça. O que se via era um espetáculo de mulheres vestidas de preto, crianças gritando e correndo por todos os lados, a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro, os mendigos quase nus e as putas velhas, o Barbeiro e seu cachorro cego de um olho só, trinta e sete galinhas e vinte dois porcos produzindo uma algazarra infernal, o Pedreiro italiano gritando impropérios às trinta e sete galinhas e aos vinte e dois porcos, os Coronéis de Bigode, o Doutor conversando vulgaridades com o Sapateiro, o Escultor com uma pedra imensa amarrada nas costas, as dezoito sobrinhas encantadas do Capitão Lucrécio da Morte Certa, o Juiz e os seus correligionários, os bêbados mijados, um homem demoníaco que cuspia fogo pela própria boca – “Deus! de onde veio tanta gente?” – o Capataz com os olhos de coruja, os ciganos de Quintalina, o Professor de latim, os índios do Mar dos Charaéis, as pequenas freiras do Convento Redentor das Almas Perpétuas e Milagrosas, e outros tantos que ele jamais tinha visto na sua vida. O Prefeito deu um passo à frente, puxou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto. Mais um. E outro. A multidão finalmente se calou. “Pode passar as ordens, Vigário”, disse. “Irmãos, com a ajuda de Deus, vamos levar o Poeta até o mar, atendendo ao seu último pedido. Peço para que a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro para ir à vá na frente e que as mulheres e crianças usem os cavalos.” Assim foi feito, e muito devagar foram saindo da cidade, que ficou completamente vazia – até os fantasmas e os cachorros vira-latas seguiram o cortejo.
Foi um Coronel de Bigode, muito asseado, muito seguro de si, o primeiro a se aproximar do carro onde estava o morto. Abriu um livro pequeno de capa vermelha, virou algumas páginas procurando e disse, batendo com o indicador: “foi com este poema que eu batizei a minha filha, e agora eu quero ler ele para você, Poeta”. O Coronel de Bigode leu com tamanha emoção e sentimento que quase não terminou a última estrofe, mas engoliu as lágrimas, fez uma reverência cerimoniosa com a cartola e entregou o livro para o Escultor que caminhava ao seu lado. E este repetiu o gesto: virou algumas páginas e falou, apontando para o livro: “Poeta, um dia me faltou inspiração para fazer uma rosa de mármore branco – você se lembra? – e foi com este poema que eu descobri: a rosa que eu procurava estava no jardim da lua”. E assim o livro foi passando de mão em mão, durante todo o dia. Quando anoiteceu, estavam todos tão cansados, tão exauridos, que dormiram na beira da estrada, uns sobre os outros, do jeito que deu.
Antes mesmo de o sol nascer, o galo preto que estava no carro de boi bateu as asas e cantou. Depois de uma noite terrível, com pesadelos povoados de lobisomens alados, o Prefeito lavava o rosto numa sanga gelada quando o Vigário se aproximou. “Prefeito, eu gostaria de lhe pedir mais uma coisa.”, interpelou o Vigário. “Vigário, o senhor não acha que já me pediu coisas demais nesta história?” “Sim, é verdade, é verdade… mas é que eu queria ter uma fotografia deste enterro, desta viagem, deste acontecimento!” E fez um gesto amplo com as mãos, como se conseguisse abraçar todo aquele rebuliço de gente e de bichos que estava à sua volta. O Prefeito secou o rosto olhando para o horizonte – “o mar, ora! o mar é tão longe…” – e gritou a plenos pulmões para o Capataz que viesse até ele. O Capataz ouviu com atenção, mas não entendeu. “Um fotógrafo? Um daqueles retratistas? Senhor Prefeito, não sei onde encontrar um.” “Istso é problema teu, monte de merda.” O Capataz nem discutiu – “será feito, senhor Prefeito” – e saiu correndo pela estrada. “Prefeito, isto que estamos fazendo é muito mais que uma caridade” – continuou o Vigário, sorrindo – “estamos atendendo a um pedido, o último!, de um homem que era adorado por todos, mas sozinho no mundo. O senhor sabe, o filho do Poeta sumiu-se por aí, perdeu-se em alguma desgraça, em alguma guerra neste mundo de Deus…” O Prefeito fingia que escutava, mas o pensamento estava longe, mergulhado na saudade de uma banheira com água quente.
As cantorias, as rezas e a leitura do livro de poemas continuaram iguais naquele dia, mas a noite foi muito pior, porque uma chuva gelada caiu sobre os cansados peregrinos. Porém, assim foi a viagem: uns dias de sol e outros de chuva. E houve dias em que o vento frio cortou até as esperanças mais escondidas. E também houve dias em que a própria solidão andou ao lado deles, e nem a Banda dos Cinqüenta Músicos Abençoados do Salto do Teodoro Socorro conseguia tocar. Somados um a um, foram quatorze dias caminhando sobre as mais terríveis intempéries, até que finalmente chegaram ao mar numa tarde. Era uma praia longa, de ventos fortes, areia grossa e com vários navios antigos encalhados. A multidão correu feliz sobre as ondas. Mergulharam na água gelada, gritaram como bichos e lamberam os dedos salgados – era a primeira vez que viam o mar. As crianças corriam na areia, faziam castelos e abraçavam os navios encalhados. O Vigário ficou nervoso no meio daquela algazarra toda, forçou a vista procurando, olhou de um lado para o outro, até que gritou pelo Prefeito. Uma, duas, três, quatro vezes. “Pare de gritar, Vigário! Estou bem na sua frente, homem de Deus!” O Vigário precisou colocar a mão na boca para não gritar, porque aquele homem esfarrapado, magro, descalço, imundo e escabelado era mesmo o Prefeito – a sua barba parecia ter crescido um metro! “Desculpe, não vi que era o senhor… Olha, Prefeito, lá está o Capataz! E, por Deus, ele conseguiu um fotógrafo!” Foram todos saindo do mar e aos poucos se arrumando para a fotografia. O fotógrafo montou o tripé. “Prefeito, tenho mais uma coisa para lhe pedir”, disse o Vigário ajeitando a batina. A multidão se aglomerava. “Diga de uma vez, Vigário”, falou o Prefeito alisando a barba. O Vigário entregou um livro pequeno e de capa vermelha ao Prefeito. “Toma, ainda falta ler o último poema.” As crianças sentaram na frente da multidão. O Prefeito suspirou cansado e, a contragosto, abriu o livro na última página. Leu: “eu deixo para o mundo os versos no caminho, eu deixo o mar olhando a própria vida”. Houve um breve silêncio, e foi naquele instante que um segredo conseguiu se revelar no vento do mar. O Prefeito entendeu finalmente que o último poema não era aquele. Entendeu, sim, que tudo foi uma artimanha, uma engenhosidade obscena daquela cabeça cheia de estrofes e rimas. O último ato do Poeta foi justamente preparar uma armadilha para arrancá-los daquela vida miserável que levavam. A viagem que eles fizeram em quatorze dias era um verdadeiro poema, um soneto, sendo que cada dia era uma estrofe. Eles partiram como Juízes e Pedreiros, Vigários e Putas, Barbeiros e Capatazes, mas chegaram uns iguais aos outros: todos sujos, famintos, esfarrapados e descalços. O Prefeito tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto. “Vigário, tenho 63 anos e hoje, dia 22 de julho de 1908, vou enterrar este Poeta doido e fundar uma cidade nesta praia. Vou chamá-la de Nova Poesia. Ninguém volta! Ouviram? Ninguém! Pode tirar a foto!” O fotógrafo enfiou o rosto embaixo do pano preto e com a mão focalizou. Tiraram o caixão do Poeta do carro de boi e o colocaram ele de pé, entre o Vigário e o Prefeito. Todos ficaram quietos, imóveis, na pose mais solene que conseguiram fazer. Ouvia-se apenas o vento e o mar. O fotógrafo destampou o rosto do pano preto e olhou fixamente para aquela multidão de esfarrapados. Afastou-se da câmera, apontou o dedo tremulante para o caixão e caiu de joelhos, as mãos no rosto, chorando. “Este homem no caixão é o meu pai”, conseguiu finalmente dizer.